Por que a tília é a madeira com que quase todo mundo começa
Quase todo livro de entalhe abre com a mesma recomendação, e não é preguiça. A tília — madeira da tileira, vendida como lime na Inglaterra e como basswood nos Estados Unidos — se comporta de forma tão previsível sob a faca que deixa o iniciante aprender técnica em vez de brigar com o material.
O que de fato torna uma madeira fácil de cortar
Três propriedades decidem como um bloco responde ao gume, e a tília se sai bem nas três.
- Densidade baixa. Com cerca de 400 kg por metro cúbico seca ao ar, exige pouco empurrão, então a mão conduz o corte em vez de forçá-lo.
- Poros uniformes e difusos. Não há faixa dura de lenho tardio alternando com lenho inicial macio, então a lâmina não escorrega entre os anéis de crescimento como acontece no pinus.
- Fibras curtas e fechadas. Cortes contra o fio amassam em vez de rasgar, e é por isso que o detalhe fino sobrevive em vez de esfarelar.
O pinus falha feio no segundo teste. É barato e existe em qualquer lugar, por isso o iniciante recorre a ele, mas os anéis alternados desviam a lâmina e a resina engoma o gume. A primeira tentativa em pinus costuma parecer falta de habilidade quando é, na verdade, escolha errada de material.
Como a tília se comporta sob a faca
Empurre uma lâmina afiada num bloco de tília e sai uma fita contínua de raspa, não pó. Essa fita é o retorno que ensina a entalhar: ela diz que o gume está afiado, que o ângulo está certo e que você está cortando a favor da fibra. Quando a fita se quebra em lascas, uma dessas três coisas mudou.
A madeira também segura uma superfície brunida. Como as fibras se comprimem em vez de arrancar, uma última passada de acabamento deixa uma face que dispensa lixa. Em espécies mais grosseiras você lixa para esconder marca de ferramenta; na tília dá para deixar a marca à vista, que é justamente o sentido do trabalho manual.
Compre em bloco, não em tábua
Madeira para entalhe é vendida em blocos esquadrejados, e essa é a forma sensata de comprar. Um bloco de 50 x 50 x 150 mm dá para uma primeira figura ou para a concha de uma colher, e comprar já esquadrejado poupa a serra e a bancada que talvez você ainda não tenha.
Peça material seco em estufa. A tília verde entalha muito bem e depois racha no sentido do fio enquanto seca, normalmente bem no meio da peça em que você passou a noite.
O que pedir na hora de comprar
Fornecedor raramente etiqueta madeira de entalhe de forma consistente, então ajuda descrever o que você quer em vez de dar o nome. Peça blocos limpos, sem nó, secos em estufa, com o fio correndo no sentido do comprimento. Gire o bloco e olhe o topo: você quer os anéis correndo mais ou menos paralelos à face, não curvando a partir de um canto, o que indica madeira cortada perto da medula e que vai se mexer ao assentar.
No Brasil, as mesmas propriedades de trabalho aparecem no pau-marfim e na tília importada; em Portugal e na Espanha o substituto comum é o tilo. Se nenhum deles for vendido perto de você, procure qualquer folhosa clara e de baixa densidade em que os anéis de crescimento sejam praticamente invisíveis.
Quando a tília é a escolha errada
Maciez tem dois lados. Uma colher de tília amassa contra uma panela de metal e um cabo de tília não sobrevive a uma queda. Tudo que vai ser manuseado, carregado ou molhado pede espécie mais densa — cerejeira, nogueira, ácer — e você deve contar com afiar o dobro das vezes depois desse salto.
A tília também segura mal aresta viva em trabalho muito miúdo. Abaixo de uns cinco milímetros, as fibras começam a se comprimir sob a lâmina em vez de cisalhar, e a aresta arredonda um pouco. Quem faz detalhe fino migra para o buxo ou para a pereira europeia por isso, aceitando um corte bem mais duro em troca de arestas que se mantêm.
Nada disso é argumento contra começar aqui. É argumento para começar aqui e sair daqui de propósito, quando a fita de raspa já sair limpa toda vez e você souber o que é um bom corte pelo tato.